O buraco do desemprego

 

Ariano Suassuna é daquelas pessoas que são eternas. Em uma palestra, ele lembrou de um trecho exótico que um compositor lhe apresentou: “Ao redor do buraco tudo é beira”. O autor de “O Auto da Compadecida” e outras obras-primas se divertiu com a falsa originalidade daquele músico.

Aqueles versos mal construídos, porém, são uma boa imagem daquilo que vivemos hoje. Estamos todos sempre à beira do buraco. Os números do IBGE para o desemprego são uma prova disso. Segundo o instituto, o índice chegou a 13,1% em março deste ano – a terceira elevação seguida este ano. Isto significa que são 13,7 milhões de pessoas sem trabalho. Ainda que esses dados sejam inferiores aos registrados no mesmo período do ano passado, a recuperação da economia é ainda mais discreta do que o esperado.

Entre mais de 200 milhões de habitantes, temos 90 milhões efetivamente ocupados. As vagas com carteira assinada não passam de 32,9 milhões – o menor índice desde 2012. Existem ainda 10,7 milhões de empregados sem carteira e 23 milhões de trabalhadores por conta própria. Por isso, faço críticas ao destaque dado à mídia a índices de desigualdade em pesquisas anteriores. O problema não é desigualdade, mas a geração de riqueza. O número de pessoas com renda é baixo. É pior ainda se levarmos em conta os empregos registrados.

Estamos todos à beira do buraco. Empresas, trabalhadores, profissionais liberais. É verdade que o mês de março tem, historicamente, uma queda por conta dos empregos temporários do final de ano. Porém, existe uma necessidade premente de se criar empregos de forma sustentável para que tenhamos décadas de prosperidade. Não apenas voos rasteiros que sabemos nunca vão além de poucos centímetros.

A reforma trabalhista teve o mérito de frear a velocidade do desemprego. Segundo o Instituto do Desenvolvimento do Varejo (IDV), a nova lei criou 100 mil novas vagas logo no primeiro mês de sua implantação. Em um ambiente de negócios tão hostil quanto o Brasil, a reforma não fará milagres de multiplicação de milhões de novos postos de trabalho.

Temos de criar condições para atrair investimentos. Existe muito dinheiro no mundo para ser investido. Ao olhar para o Brasil, os problemas observados pelos investidores estrangeiros são a corrupção, falta de segurança jurídica e mudança constante de regras. Um governo com legitimidade tem de liderar reformas e fazer do emprego a sua obsessão.

O Brasil precisa se livrar do jeito que Chicó, de O Auto da Compadecida, via as coisas: “Não sei. Só sei que foi assim”. É um personagem inesquecível, assim como tudo o que Suassuna criou. Só que não podemos nos conformar com a estagnação do Brasil. Políticos, empresários e parte do povo têm muito a visão de Chicó. A hora é de sair do buraco. Juntos.

*Flávio Rocha é empresário e pré-candidato à Presidência da República pelo PRB

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